terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O peso da chuva

“Os caçadores de mulheres podem facilmente ser divididos em duas categorias. Uns procuram em todas elas sua própria idéia da mulher, como lhes aparece em sonho, subjetiva e sempre a mesma. Outros são levados pelo desejo de tomar posse da infinita diversidade do mundo feminino objetivo.

A obsessão dos primeiros é um obsessão lírica, procuram a si próprios nas mulheres, procuram por seu ideal e são sempre e continuamente frustrados, porque, como sabemos é impossível encontar o que é ideal. Como a frustração que os leva de mulher em mulher dá a inconstância deles uma espécie de desculpa melodramática, muitas mulheres sentimentais acham comovente essa poligamia convicta.

A outra obsessão é uma obsessão épica, e as mulheres não vêem nisso nada de comovente: como o homem não projeta nelas um ideal subjetivo, tudo lhe interessa e nada pode decepcioná-lo. Essa incapacidade para a decepção tem qualquer coisa de escandoloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do épico não pode ser perdoada ( porque não é resgatada pela decepção).

Como o sedutor lírico persegue o mesmo tipo de mulher, nem notamos que mudou de amantes; seus amigos estão sempre provocando mal-entendidos, pois não percebem a troca de companheiras e chamam todas pelo mesmo nome.

Na sua caça a novos conhecimentos, os sedutores épicos se distanciam cada vez mais da beleza feminina convencional e acabam tornando-se colecionadores de curiosidades. Eles sabem disso, sentem um pouco de vergonha e, para não constranger os amigos, evitam aparecer em público com as amantes.”

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera.


Parece fácil, não? Mas quando essa aparente leveza que nos cerca começa a curvar nossas costas e percebemos que não é apenas 30 dias de chuva que nos fazem encolhermos e nos recolhermos à proteção de nossos próprios sonhos e davaneios percebemos que perseguimos uma situação insustentável. Qual é então a solução?

“Eles iam e vinham, improvisando passos de dança ao som do piano e do violino; (…) colocou a cabeça no ombro dele. Como no avião que os transportava através da neblina. Sentia agora a mesma estranha felicidade, a mesma tristeza estranha de então. Essa tristeza significava: estamos na última parada. Essa felicidade significava: estamos juntos. A tristeza era a forma e a felicidade, o conteúdo. A felicidade preenchia o espaço da tristeza.”

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Hibernação

Como comentei anteiormente, passo por um período de hibernação.
In this sense, esse blog deixa de fazer sentido e entra, a partir de hoje, também em hibernação.
Talvez entre em coma irreversível e não volte mais. Só o tempo dirá.
Mas isso não quer dizer que eu desisti da blogosfera. Mas estou longe de ser - e nem pretendo ser - uma blogueira.
Tchau e obrigada pelos peixes!

domingo, 4 de janeiro de 2009

Pela margem.

Me perdi. Pelo meio do caminho. Ou foi porque teimei em sair dele?
Quando me achar novamente (ou me acharem, se for o caso), eu aviso e conto como foi.
Até lá, tente viver de ilusões, antes que o carnaval chegue e mostre que o mundo foi pintado de aquarela barata.
A todos, uma boa hibernação.

domingo, 23 de novembro de 2008

Sol de inverno.

Não tenho tempo, apesar de gastá-lo de maneira despreocupada.
A falta de luz me faz sentir fraca, sem energia ou inspirações.
Após um tempo, ficou difícil continuar me enganando.
O alcóolismo intrínsico, a nerdice implícita.
O cabelo loiro, macio, brilhante.
Olhos de um azul pálido.
O sorriso sem riso.
Me apaixonei.
De verdade?
Não sei.
Mas o desejo.
As folhas caíram.
Já há neve no pátio.
Começo a me retomar.
Mas ainda há um pouco de fé.
Ainda que iluminada com parca luz.
Será que eu sou apenas alguém do passado?

sábado, 1 de novembro de 2008

Não sei porquê aquele lugar mexe comigo. Só sei que mexe.
Vai contra tudo que eu sempre (ou quase sempre) sustentei. Há quanto tempo não acredito? Acho que nunca acreditei, mas só fui perceber isso quando me colocaram na linha de tiro, e vi que não havia nenhum muro para me apoiar. Os muros já foram derrubados. Os poucos que restam são alvos que ódio e desesperança.
Talvez seja por isso. Nunca tive algo no qual eu pudesse me agarrar. Nunca me senti confortável. Lugares lotados. Multidões em um coro silencioso. Toda a hipocrisia resumida em dois milênios e duas mil páginas.

Mas naquele lugar isso tudo não importava. Todo o ódio e remorso que eu sentia por aqueles símbolos, signos, ícones, representações, ilusões... nada daquilo era relevante. Pois havia algo mais. Algo que nunca senti em nenhum outro lugar. Talvez seja o que algumas pessoas chamam de sagrado. Eu prefiro não nomear.

Pode ter sido a fumaça, as gravuras desbotadas, as palavras e letras já mortas... mas eu senti que eu pertencia àquele lugar - algo muito raro de ocorrer.
Acendi uma vela. Sem pensar, lembrei de uma pessoa e pedi por ela.

Hoje sonhei com ela, e com a mesma vela que há tempos eu havia acendido.
Ela falou sobre fé. Não com palavras, visto que é muda quando se trata de pronunciar a verdade. Mas com seus olhos sempre descrentes, iluminados pela chama.

domingo, 26 de outubro de 2008

Cabin Trip - um fim de semana entre as estrelas e as decepções.

Mesmo com toda a fama,
Com toda a brahma
Com toda a cama,
Com toda a lama
A gente vai levando,
A gente vai levando,
A gente vai levando
A gente vai levando essa chama

Mesmo com todo o emblema,
Todo o problema
Todo o sistema,
Todo Ipanema
A gente vai levando,
A gente vai levando,
A gente vai levando
A gente vai levando essa gema

Mesmo com o nada feito,
Com a sala escura
Com um nó no peito,
Com a cara dura
Não tem mais jeito,
A gente não tem cura

Mesmo com o todavia,
Com todo dia
Com todo ia,
Todo não ia
A gente vai levando,
A gente vai levando,
A gente vai levando
A gente vai levando essa guia

Mesmo com todo rock,
Com todo pop
Com todo estoque,
Com todo Ibope
A gente vai levando,
A gente vai levando,
A gente vai levando
A gente vai levando esse toque

Mesmo com toda sanha,
Toda façanha
Toda picanha,
Toda campanha
A gente vai levando,
A gente vai levando,
A gente vai levando
A gente vai levando essa manha

Mesmo com toda estima,
Com toda esgrima
Com todo clima,
Com tudo em cima
A gente vai levando,
A gente vai levando,
A gente vai levando
A gente vai levando essa rima

Mesmo com toda cédula,
Com toda célula
Com toda súmula,
Com toda sílaba
A gente vai levando,
A gente vai tocando,
A gente vai tomando
A gente vai dourando essa pílula.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Voltas

Voltei.
Mas queria ficar.
Vou.
Mas querendo não ir.
Estou.
Mas não sei em que direção virar.
Fui.
Mas acabei me perdendo no meio do caminho.

Dando voltas e voltas, vi teu reflexo nas vitrines, ouvi tua voz nas esquinas.
Desejando não mais ouvir-te nem ver-te.
Mas o mundo já deu meia volta.
Fui.
Estou.
Vou.
Voltei.
Mas continuo a dar voltas em mim mesma.