segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Notas de Verão sobre Impressões do Inverno

O verão acabou... ou ao menos o que era para ser o verão.

As cores mudam, as horas mudam, certos sentimentos não mudam. As folhas alaranjaram, as roupas acinzentaram e ainda assim não consigo distinguir o preto e branco do colorido. As sombras estão cada vez maiores, tanto as externas como as internas... mas tenho vinho e luz de vela para me reconfortar.

Meu pequeno quarto está sempre tão bagunçado... tenho evitado meus senhorios. Assim é melhor. Talvez... não. Pra quê me elevar à categoria de literatura dramática? Minha mania tola de querer viver numa St. Petersburgo de Dostoiévsky ou numa Londres de Woody Allen (sinto muito, mas Barcelona não é a minha cara). Mas vivo na Copenhagen de Andersen de bom grado. E já aprendi com o autor: nunca ame o que você não pode ter... essa é a verdadeira moral da história para a pequena sereia - e que pequena!

Quanto mais eu bebo menos bêbada fico - e o contrário também é estranhamente verdadeiro. O dinheiro sempre acaba antes do clímax. Mas me sinto muito mais embriagada pelo vento e a sensação de liberdade que me perpassa (ou ultrapassa?) toda vez que bicicleto até o mar no final do dia; de madrugada; para ver o nascer do sol... sim, digo "bicicletar". Se os dinamarqueses têm o verbo cycle (leia-se süclê, com biquinho), eu também posso ter um verbo com o mesmo significado.

Amo a praia de Amager - e amo a sonoridade dessa palavra... é como pronunciar "amar", mas um pouco mais pausado e com ênfase no primeiro "a" (todas as outras palavras em dinamarquês são feias e incoerentes). Não consigo ficar mais que três dias sem andar por lá, faça chuva, sol ou vento - o que, aqui, é o pior de tudo. Mas as curvas e caminhos de Amager estão acima disso... pedalo até começar a sentir cãibras (uma das palavras mais feias da língua portuguesa) e mesmo depois disso. Pedalo até até escurecer ouvindo Belle & Sebastian.

E como eu amo música! Como eu nunca havia percebido isso antes? E se for ao vivo ainda melhor... os festivais de rock de verão, as noites de jazz de domingo, bandas folks que estão nos bares e as grandes bandas nas grandes venues... pena que vou viajar semana que vem e perder alguns bons shows...

Mas do que eu reclamo? Logo mais embarco para a Rússia... meu sonho durante anos. Preciso comprar luvas e casacos. Talvez neve por lá. Quem sabe acho algum parente distante? Eu deveria fazer a mesma busca pela Espanha e Itália... pelo menos sei em que regiões procurar.

Nos últimos dias quis queimar uma foto. A única que carrego comigo. Mas seria pitoresco e cinematográfico demais, ainda mais se o fizesse no pier de madeira da praia. Para quê? Sei que gosto de prolongar minhas sombras, assim como o outono dinamarquês. Não... faz tanto tempo que nem olho para a foto... deixo onde ela está: longe dos meus olhos mas ao alcance de minhas mãos.

É estranho como releituras de um mesmo personagem sempre acabam aparecendo na minha vida. Recentemente foi um Kurt Cobain europeu, alcoólatra e doce. Sempre acabo me desiludido com uma noite de verdades... ao menos dessa vez foi para o bem. "Only unfulfilled love can be romantic", já diria - ou dirá - um dos meus cineastas favoritos.

Tenho economizado em algumas coisas para poder fazer outras: as vezes não como para poder ir ao cinema. Ou não compro agasalhos para fazer uma refeição decente. Também economizo nas verdades para fazer o mundo parecer mais interessante. As vezes guardo as mentiras até elas amadurecerem e parecerem verdades - por vezes estragam, azedam e acabam apenas servindo como um conservante para velhas mágoas.

Sinto saudades. Não sei direito de quem ou do quê. Sei de quem e do que sinto falta. É tudo e nada. Como eu poderia sentir saudades de coisas - e pessoas - que não mais existem? O saudosismo é doença e me mata devagar. Palavras, afinal, são apenas palavras - ou uma junção ordenada de letras se você preferir a versão dos chatos-, e as lágrimas podem ser apenas conseqüência do vento frio contra meus olhos.

Não quero abrir os olhos. Ainda não sei em que lugar pertenço - sempre soube, entretanto, o que me pertence. Descobri, porém, aonde não pertenço.

Um comentário:

Unknown disse...

Lucy, meu bem, vc me comoveu...e olha que isso não é uma tarefa muito simples de se fazer.
Caraca mulher, vc escreve muitíssimo bem. Sinto saudades das nossas conversas e divagações.
Mas acredito que filosofar na Dinamarca deva ser, além de muito mais chique, muito animal.
Vai para Rússia ahn?? Se divirta muito, vc merece e depois me conta como é la..quer detalhes!! :D. Ah e não esqueça de dar um catch em um russo, meio bebum, e gosotoso por lá, okay? ;)
se cuide se..e por favor escreva mais...assim da para saber como vc está...
bjundas amiga querida!!!
Marcita